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segunda-feira, 19 de abril de 2010

DISPENSACIONALISTAS TAMBÉM PENSAM: exegese e escatologia em Marcos 13.14-23

Parte 2


13. ... (15) quem estiver em cima, no eirado, não desça nem entre para tirar da sua casa alguma coisa; (16) e o que estiver no campo não volte atrás para buscar a sua capa.
(17) Ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias!  (18) Orai para que isso não suceda no inverno. (19) Porque aqueles dias serão de tamanha tribulação como nunca houve desde o princípio do mundo, que Deus criou, até agora e nunca jamais haverá. (20) Não tivesse o Senhor abreviado aqueles dias, e ninguém se salvaria; mas, por causa dos eleitos que ele escolheu, abreviou tais dias.


A segunda parte do texto bíblico, em análise, desta série (1o. Artigo, clique aqui) nos informa que a grande tribulação virá de forma tão iminente e brusca que “pegará” muitos de surpresa, a ponto de que os que estiverem em cima de suas casas, talvez dormindo ou realizando alguma atividade (os telhados eram planos e muito do dia-a-dia ocorria ali), precisarão fugir, deixando tudo para trás, sem levar nada consigo (v. 15). Da mesma forma, os que estiverem trabalhando no campo precisarão fugir, sem sequer levar consigo sua capa, para se aquecerem durante a noite fria nas montanhas (v. 16). Grávidas e mulheres que amamentarem encontrarão maior dificuldade pela urgência da fuga e a necessidade de correrem com seus bebês (v. 17). O inverno na Palestina é uma estação de muita chuva, em que os rios transbordam e os caminhos, enlameados, tornam-se quase intransitáveis (v. 18). Este será um momento de tribulação intensa, sem igual em época alguma (v. 19; cf. hai hemerai ekeinai thlipsis com v. 24), mas  já prevista por Jeremias e Daniel, como um momento que antecederia a salvação de Israel e o fim dos tempos (Jr 30.7ss; Dn 12.1ss).
Digno de nota é que ambas as profecias do AT são um prenúncio de tribulação intensa, especialmente, sobre a nação de Israel. A profecia do Senhor Jesus parece se apoiar nesta perspectiva, pois, faz referência especificamente aos moradores da Judéia (v. 15), cujo clima no inverno dificultaria, em muito, a fuga (v. 18), e fala de uma tribulação enorme que antecederá um momento de poderosa salvação para os seus eleitos (vv. 19, 24-27).
Outro paralelo textual, que não pode ser deixado de lado, é a descrição encontrada no livro de Apocalipse, capítulo 12, em que uma mulher que representa a nação de Israel (Ap 12.1 com Gn 37.9-11; Ap 12.5 com Rm 9.1-5) foge de uma perseguição promovida pelo próprio Satanás (vv. 6, 13-14), quando pouco tempo lhe restava, antes de ser vencido (Ap 12.12; cf. 19.19 – 20.3).
Nada disso foge da providência divina, que cuida e se preocupa com seus eleitos (v. 20), uma expressão tanto para Israel (1 Cr 16.13; Sl 105.43; Is 65.9, 15) quanto para gentios salvos e participantes da Nova Aliança (1 Pe 1.1; 2 Tm 2.10; Cl 3.12). Foi Deus quem determinou a brevidade deste período, a fim de salvar Seu povo de tal tribulação. A soberania divina, todavia, não anula a responsabilidade destes eleitos de orarem e clamarem pela misericórdia de Deus num período de tamanha provação (v. 18).
Adolf Pohl questiona o fato de que, se Marcos 13.14-23 trata sobre a grande tribulação, por que o texto não apresenta esta tribulação alcançando o mundo inteiro? (POHL, p. 372). Mas ele ignora um detalhe do verso 20, que diz que, caso tais dias não fossem abreviados, “toda a carne não se salvaria” (ouk esothe pasa sarx), sendo que “toda carne” (pasa sarx) é uma expressão bíblica para indicar a humanidade em sua totalidade (cf. Lc 3.6; Gl 2.16; 1 Pe 1.24). 

domingo, 28 de março de 2010

DISPENSACIONALISTAS TAMBÉM PENSAM: exegese e escatologia em Marcos 13.14-23

PARTE 1


"Quando vocês virem ‘o sacrilégio terrível’ no lugar onde não deve estar — quem lê, entenda — então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes." (Marcos 13.14)

A PROFANAÇÃO DO TEMPLO

Em textos passados,  observei que os acontecimentos descritos pelo Senhor Jesus em Marcos 13.1-13 se relacionavam não com eventos necessariamente ligados ao término dos tempos, mas à destruição do templo, em 70 A.D., e ao todo do período da igreja, precedente à grande tribulação e à vinda de Cristo. A partir do verso 14, o Senhor Jesus parece descrever eventos ligados aos finais dos tempos. Primeiramente, porque o texto fala sobre uma tribulação tamanha, tal qual não houve antes e nunca haveria igual (v. 19). Além disso, o verso 24 nos dá uma chave para interpretar os acontecimentos, pois, naqueles dias, após aquela tribulação, a vinda do Senhor Jesus ocorreria (en ekeinais tais hemerais metá ten thlipsin ekeinen - vv. 24-26). Assim, interpretar os acontecimentos como apenas ligados aos acontecimentos da guerra dos judeus e a eventual queda de Jerusalém, entre 66-70 A.D., é desconsiderar os dados do próprio texto.

Um dos acontecimentos ligados à grande tribulação final é o aparecimento do abominável da desolação, uma expressão originada no profeta Daniel (Dn 9.27; 11.31; 12.11cf. Mt 24.15) e que se relaciona ao término dos sacrifícios no templo e a profanação deste. Há uma relação desta expressão de Daniel com o que ocorreu na época dos Macabeus, em 167 a.C. (1 Mc 1.54-59; 6.7), quando um representante de Antíoco Epifânio ergueu um altar pagão sobre o altar de bronze do templo e sacrificou uma porca ali, em homenagem ao deus Zeus (cf. Dn 11). Mas, sabemos que esta profecia não se limita apenas a este acontecimento, já que Jesus fez referência a ela como algo a ocorrer no futuro.

Há uma disputa acirrada entre os comentaristas quanto ao momento do cumprimento desta profecia de Jesus. Vários dizem ter tal anúncio se cumprido durante a revolta judaica, entre 66-70. Alguns dizem que o “abominável da desolação” é a invasão do exército romano em Jerusalém e a destruição por eles do templo, no ano 70 A.D (ver HURTADO, NICB, p. 215-217). Outros dizem que isso ocorreu quando os zelotes instituíram Fani, um homem primitivo, como sumo-sacerdote e o fizeram entrar no santo dos santos (ver POHL, p. 372-373).

O grande problema com estas interpretações é que elas não levam em conta, o suficiente, as indicações, dos versos 19 e 24, de que estes acontecimentos se relacionavam com o fim dos tempos e que a expressão “mas” (dé), em 13.14, aponta para um contraste entre os acontecimentos de 4-13 e os de 14-23.

Daniel, também, relaciona o aparecimento do “abominável da desolação” com o final dos tempos, quando o povo de Deus será purificado por Ele e, então, liberto (Dn 12.1-3, 9-12). Além disso, o apóstolo Paulo menciona uma cena muito semelhante, quando o Anticristo se assentará no “santuário de Deus” e reivindicará para si a própria divindade, mas será destruído pela vinda do Senhor Jesus (2 Ts 2.3-4, 7-10). Este último texto se assemelha muito com a cena de Marcos 13, que fala do “abominável da desolação” se colocando “no lugar em que não deve” (v. 14) e, logo após a tribulação de tais dias, o Senhor Jesus vindo para salvar seu povo (vv. 24-26).

O sinal claro, então, dos fins dos tempos não é, necessariamente, guerras ou terremotos, ou fomes ou falsos profetas. Mas, sim, a revelação do Anticristo e sua profanação do templo de Deus, em Jerusalém. Qualquer alarde desvinculado disso é jogar tempo fora e perder de perspectiva a nossa missão (vv. 9-11).

domingo, 24 de agosto de 2008

É possível Crer sem ser Discípulo?


Creio que em alguns artigos deste blog ficou bem clara minha visão escatológica e hermenêutica dispensacionalista. Até aqui, tenho percebido no dispensacionalismo uma perspectiva que me satisfaz, enquanto leio e procuro entender o texto bíblico.

Mas, algo me incomoda profundamente no meio dispensacionalista: a sua abordagem soteriológica. Esta dicotomia que se faz entre ter a Cristo como Salvador e não como Senhor, ou, entre crer em Cristo e ser discípulo dEle. Isso não é algo novo, já que John MacArthur (um dispensacionalista) escreveu seu livro "The Gospel according to Jesus" há quase vinte anos atrás, criticando essa visão.

Teologias Sistemáticas como a de Chafer e Ryrie, mais a proposta de Scofield em sua Bíblia com anotações, nos revelam um entendimento de que a pessoa pode ser salva, sem, necessariamente, ter Cristo como o Senhor de sua vida. A implicação é que o salvo nem sempre dará frutos de transformação pós-conversão.

Lembro sempre de ouvir João 8.31 como base para a separação do discipulado e fé. Ali pessoas que crêem em Cristo, são chamadas a se tornarem seus discípulos. Eram salvas, mas não discípulas. O problema de tal afirmação é que não leva em conta o contexto. O evangelho de João retrata pessoas que expressam uma fé em Jesus, mas não uma fé, realmente, salvadora. O próprio capítulo 8 continua narrando a conversa de Jesus com esses judeus que, supostamente, "creram nEle" e os chama de filhos do Diabo (8.44), além de afirmar que, de fato, não acreditam em quem Ele afirma ser (8.42-47).

O próprio final do capítulo 2.23-25 de João diz: " ... muitos viram os sinais milagrosos que ele estava realizando e creram em seu nome. Mas Jesus não se confiava a eles, pois conhecia a todos. Não precisava que ninguém lhe desse testemunho a respeito do homem, pois ele bem sabia o que havia no homem". O fato dessas pessoas crerem em Jesus, não significava, necessariamente, que eram salvas, pois não era uma fé que compreendia a majestade e missão da Pessoa de Jesus. Tanto que no capítulo seguinte, Nicodemos se apresenta elogiando Jesus, como Mestre da parte de Deus e o Senhor lhe declara sua total necessidade de nascer de novo, para, realmente, experimentar o reino de Deus em sua vida. Nicodemos é o retrato daqueles que creram em seus milagres: "ninguém pode realizar os sinais milagrosos que estás fazendo, se Deus não estiver com ele" (Jo 3.2), mas ainda precisava "nascer de novo" (3.3).

Por fim, o propósito de João não era apenas levar seus leitores à fé em Cristo, mas a uma fé que frutificasse em discipulado, numa vida abundante por meio de Cristo: "Jesus realizou na presença dos discípulos muitos outros sinais milagrosos ... Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome" (Jo 20.30-31).

terça-feira, 1 de abril de 2008

O que Roy B. Zuck tem a dizer sobre dispensacionalismo e aliancismo?

O texto que segue abaixo é extraído do livro texto de hermenêutica em cursos teológicos "A interpretação bíblica", publicado pela editora Vida Nova, do Dr. Roy
B. Zuck, reconhecido acadêmico, dispensacionalista, professor emérito de exposição bíblica do Dallas Theological Seminary, e editor, juntamente com Walvoord, do famoso comentário bíblico "Bible Knowledge Commentary".

A teologia das alianças consiste num sistema teológico centrado na chamada aliança da graça, que foi um acordo entre Deus e os pecadores eleitos pelo qual ele lhes provê graça para salvação. A maioria dos teólogos das alianças também é amilenarista, embora alguns sejam pré-milenaristas. As três doutrinas principais da teologia da aliança são: 1) A "igreja" é formada pelo povo redimido de Deus em todas as eras, não somente pelos da era atual, que se estende do dia de Pentecoste até o Arrebatamento. 2) As alianças abraâmica, davídica e nova encontram cumprimento na era moderna (Os teólogos do pré-milenarismo sustentam que, apesar da possibilidade de haver cumprimento de alguns aspectos dessas três alianças nesta era moderna, haverá também um cumprimento futuro. Os amilenaristas, à semelhança dos teólogos das alianças, negam qualquer cumprimento futuro dessas alianças). 3) O programa divino tem finalidade soteriológica, ou seja, proporcionar salvação para as pessoas.


Em linhas gerais, a teologia dispensacionalista gira em torno de dois conceitos: 1) a igreja não equivale a Israel e 2) o plano divino tem um propósito doxológico, ou seja, glorificar o próprio Deus (Ef 1.6, 12, 14). Com respeito ao primeiro deles, considera-se a distinção entre a igreja e Israel, pois aquela possui um caráter distinto. Paulo escreveu a respeito de uma dispensação na qual Deus eleva tanto os judeus crentes quanto os gentios a uma mesma condição de igualdade como membros do corpo de Cristo. Esse fato era desconhecido nos tempos do Antigo Testamento (Ef 3.5, 6). No Antigo Testamento, desde a época de Moisés, Deus tratava essencialmente com Israel, mas hoje a igreja é composta por judeus e gentios crentes, que formam um único corpo de Cristo, a igreja. Em 1 Coríntios 12.13, lemos do batismo dos crentes no corpo de Cristo, e 10.32 fala da diferença entre Israel e a igreja (RADMACHER In: GUNDRY e KANTZER. Perspectives on evangelical theology. p. 171). A dispensação ou administração vindoura é o futuro reino milenar (Ef 1.10). Romanos 10.1 também faz alusão ao caráter exclusivo de Israel.

Considera-se a diferença entre a igreja e Israel não só pelo caráter bem definido da primeira, mas também por sua época própria. A era da igreja começou após a ressurreição (Ef 1.20-22) e a ascensão de Cristo (Ef 4.7-12). Como todos os crentes nesta era são batizados no corpo de Cristo (1 Co 12.13), o princípio da era da igreja deve ser associado ao início do ministério de batismo do Espírito Santo. Os cristãos gentios na casa de Cornélio, "... assim como nós, receberam o Espírito Santo", afirmou Pedro (At 10.47), e "... caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós no princípio" (At 11.15). A alusão que Pedro fez ao fato de os judeus já terem recebido o Espírito Santo e de que o Espírito Santo desceu sobre eles "como também sobre nós no princípio" refere-se ao que aconteceu no dia de Pentecoste, conforme relata Atos 2. Está claro que é desse acontecimento que ele está falando, pois o Senhor dissera pouco antes, enquanto ascendia aos céus, que eles haveriam de receber o Espírito Santo (At 1.8).

A igreja, que nasceu no dia de Pentecoste, possui um programa próprio, que distingue a era moderna da dispensação inaugurada com o fornecimento de lei a Israel. Essa nação recebeu promessas especiais, enquanto outras foram feitas à igreja, que é o corpo de Cristo. É claro que em cada dispensação as pessoas são salvas pela fé, não por obras (ênfase minha).

Além disso, Deus tratava com a humanidade de forma diferente antes da instituição da lei mosaica. E, antes da queda do homem, em Gênesis 3, havia outra dispensação em vigor. Assim, as Escrituras distiguem pelo menos cinco dispensações.

Os dispensacionalistas partem de um estudo hermenêutico coerente, considerando a interpretação normal, gramatical um fundamento essencial à sua hermenêutica. Com essa base, fazem a distinção entre Israel e igreja quanto à dispensação. Como expressou RadMacher: "a interpretação literal [...] é a 'linha-mestra' do dispensacionalismo [...]. Sem dúvida, o mais significativo desses [princípios] é a manuntenção da diferenciação entre Israel e a igreja" (RADMACHER In: GUNDRY e KANTZER, p. 171). Ryrie também comentou essa questão: "Se a interpretação direta e normal consiste no único princípio hermenêutico válido e se for aplicada coerentemente, a pessoa se tornará dispensacionalista" (RYRIE, Dispensacionalism today, p. 21). Aceitar os termos Israel e Igreja em sentido normal, literal, equivale a conservar sua distinção. Israel sempre significa o Israel étnico, nunca se confundindo com o termo igreja, nem as Escrituras jamais empregam igreja em substituição ou como sinônimo de Israel.

Como já disse, o segundo conceito da teologia dispensacionalista é o programa doxológico de Deus. Embora os teólogos das alianças não neguem que o plano divino visa a glorificá-lo (mediante a aliança da graça atualmente em vigor), parece que eles enfatizam mais o propósito soteriológico do Senhor. Por exemplo, Hoekema escreveu que o objetivo do reino de Deus "é redimir o povo de Deus do pecado" (HOEKEMA In: CLOUSE. The meaning of the millennium. p. 181). Os dispensacionalistas também salientam que o plano divino de salvação pela fé unifica todas as dispensações, ao mesmo tempo em que eleva a graça de Deus à condição de pincípio fundamental que unifica todas as dispensações (ênfase minha). Em outras palavras, o programa de Deus em cada dispensação visa a glorificá-lo. Se por um lado, os teólogos das alianças e os dispensacionalistas ressaltam a glória de Deus (doxologia) e a salvação (soteriologia), os dispensacionalistas pregam que o grande propósito de Deus em cada dispensação é glorificar a si mesmo. Um dos meios principais de fazer isso é mediante a salvação pela fé (em todas as eras), mas o alvo final é sua glória.

ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1994.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Dispensacionalismo, Teologia do Diabo?
Em prol de um diálogo respeitoso


Confesso que, como dispensacionalista, preocupa-me ver o que tem sido divulgado na Internet, em português, sobre o dispensacionalismo. A impressão transmitida é a de que o dispensacionalismo, como visão escatológica e hermenêutica, se constitui numa teologia de ignorantes, diabólica e heterodoxa. Francamente, palavras e insinuações fortes e ofensivas, em nada contribuem para um diálogo hermenêutico e teológico produtivo. Na verdade, quando faltam argumentos, há a necessidade de uso de palavras que desprezem a perspectiva oposta.

Diante disso, começo a divulgar neste blog alguns artigos que mostrarão tanto a plausibilidade do dispensacionalismo, como a dignidade que tal sistema possui, ao menos para ser ouvido e respeitado.

Vale à pena, então, como pontapé inicial, citar teólogos respeitados no meio prostestante-evangélico, que adotaram o dispensacionalismo como sua visão pessoal.

Charles C. Ryrie, editor da Bíblia Anotada1 e autor de Basic Theology, traduzido em português sob o título semelhante de Teologia Básica2, foi professor durantes muitos anos na área de teologia sistemática do Dallas Theological Seminary, é dispensacionalista declarado e autor de livros que expõem o dispensacionalismo, bem como o defendem, enquanto sistema teológico.3 Ele escreve, em Teologia Básica, o seguinte: “Sou um pré-milenista e essa será a perspectiva pela qual analisarei a escatologia nesta parte do livro”.4 Também, diz:

Novamente voltamos nossa atenção para a questão da ocupação incompleta da terra. Embora Israel, como nação, tenha ocupado parte da Terra Prometida pela aliança, ela jamais foi ocupada totalmente conforme o prometido. Portanto, deve haver algum momento no futuro em que Israel o fará. Para os pré-milenistas, isso ocorrerá no reino do milênio. Logo, a aliança abraâmica fortalece a escatologia pré-milenista.5

Ao falar sobre a igreja, Ryrie é bem direto ao declarar que “A igreja é distinta de Israel e não teve início até o dia de Pentecostes, portanto, não existia durante o Antigo Testamento”.6

Outro importante teólogo dispensacionalista é o Dr. Thomas L Constable, professor de Exposição Bíblica do Dallas Theological Seminary, autor de Nelson's New Testament Survey : discovering the essence, background & meaning about every New Testament book, seus comentários bíblicos podem ser acessados no site http://www.soniclight.com/, na seção Study Notes e possui alguns trechos traduzidos e disponibilizados em português por http://www.monergismo.com/.

Em seu comentário de Gálatas, no texto de 6.16, ele declara o seguinte:

Ele desejava isso, especialmente, para o “Israel de Deus”. Este título incomum se refere a judeus salvos. Descreve um segundo grupo no verso, não o mesmo grupo. Perceba a repetição de “sobre” que faz tal distinção. Também, “Israel” sempre indica judeus de sangue nas demais ocorrências no Novo Testamento (65 vezes). Além do mais, seria natural para Paulo, escolher judeus cristãos para uma menção especial, desde que nesta epístola ele quase soou anti-semita. Assim, é melhor entender esta frase no seu uso normal do que como a única designação para a igreja como um todo, como muitos não dispensacionalistas fazem.7

Depois deste comentário, Constable cita Peter Richardson:

Uma forte confirmação desta posição [i.e., que “Israel” indica judeus no Novo Testamento] vem da total ausência de uma identificação da Igreja com Israel até A.D. 160; e, também, da total ausência, até então, do termo “Israel de Deus” para descrever a Igreja.8

Para uma clara perspectiva da posição escatológica dispensacionalista de Constable, basta ler seu comentário sobre Apocalipse9, no qual entende o milênio como literal e os 144.000 israelitas no capítulo 7, também.

De início, estes dois teólogos dispensacionalistas respeitados no meio evangélico-protestante, revelam o peso intelectual e ortodoxo que o sistema possui. Nos próximos artigos, pretendo falar sobre Roy B. Zuck, Lewis S. Chafer, Eugene Merril, Allen Ross, John MacArthur, dentre outros grandes teólogos dispensacionalistas.

Por fim, cabe uma pergunta importante. Se o dispensacionalismo é tão perigoso e prejudicial, como alguns reformados dizem ser, por que o Dr. Heber Carlos de Campos, ministro presbiteriano, professor do departamento de Sistemática do Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper, traduziria para o português a maior obra sistemática do dispensacionalismo, escrita por Lewis Sperry Chafer?10

Portanto, parece que o caminho mais excelente (1 Co 12.31) nessa discussão é o respeito e reflexão, e não o uso de recursos retóricos que ludibriam, mas não produzem o pensar sadio. Assim, sugiro que aliancistas busquem conhecer melhor o dispensacionalismo, especialmente aquilo que vem sendo desenvolvido nos dias hodiernos. As obras citadas neste artigo são de grande valia para isso.

Uma outra sugestão é a leitura de artigos sobre escatologia e hermenêutica que são publicados no site http://www.bible.org/ e no periódico Bibliotheca Sacra, editado pelo Dallas Theological Seminary.


Em prol de um debate respeitoso,
Em Cristo,
Tiago Abdalla T. Neto


1 RYRIE, Charles Caldwell (ed.). A Bíblia Anotada. São Paulo: Mundo Cristão, 1991.
2 RYRIE, Charles Caldwell. Teologia Básica: ao alcance de todos. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.
3 Dois destes livros são Dispensacionalism Today e The Basis of Premillennial Faith.
4 Op cit. p. 511.
5 Idem. p. 531.
6 Idem. p. 461.
7 CONSTABLE, Thomas L. Notes on Galatians. [s.l.], 2005. p. 71-72. (Tradução do autor).
8 Richardson, Peter. Israel in the Apostolic Church. Society for New Testament
monograph series. Cambridge: Cambridge University Press, 1969. Apud CONSTABLE, Thomas L. Notes on Galatians. [s.l.], 2005. p. 72. (Tradução do autor).
9 CONSTABLE, Thomas L. Notes on Revelation. [s.l.], 2007.
10 CHAFER, Lewis S. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003.

domingo, 27 de janeiro de 2008


Dispensacionalismo e Aliancismo: impactos hermenêuticos

Introdução

O presente texto visa uma compreensão dos dois modelos hermenêuticos, dispensacionalismo e aliancismo (mais conhecido como "teologia do pacto"), percebendo seus pressupostos e como estes influenciam a interpretação bíblica de cada grupo.

A diferença básica dos dois grupos implica na maneira como enxergam a relação entre Israel e Igreja, vendo-os como uma unidade ou como dois povos distintos dentro do plano redentor divino. Já houve discussões maiores quanto ao conceito salvífico, isto é, quanto às condições da salvação do homem ao longo da revelação bíblica. Hoje, o ponto de discussão se concentra, como já dito anteriormente, na relação Israel-Igreja, na aplicabilidade do Antigo Testamento à vida cristã e no modo de interpretação da profecia bíblica.

O Aliancismo ou Teologia do Pacto

O aliancismo é um sistema hermenêutico que olha para a revelação bíblica entendendo que Deus se relaciona pactualmente com Suas criaturas desde a eternidade. Há, basicamente, três pactos. O primeiro é o "Pacto de Redenção", onde o Pai, na eternidade, propôs ao Filho enviá-lo com o propósito de redimir a humanidade mediante a obra expiatória deste. Dentro deste pacto maior entre o Pai e o Filho se encontram o "Pacto das Obras" que Deus fizera com Adão antes da queda e o "Pacto da Graça" que se deu pós-queda. O Pacto das Obras dizia respeito às condições para que Adão pudesse viver eternamente na presença de Deus, o que dependia de comer ou não da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.17), ou seja, de obedecer ou não a Deus. Após a queda humana, Deus estabeleceu o Pacto da Graça, onde as condições para o homem ser salvo de sua separação de Deus se encontram na graça divina, com base na obra de Cristo e mediante a fé humana nesta obra do redentor. Isto implica em que para os aliancistas, desde a queda, a salvação do homem se dava por meio da fé na salvação daquele que viria da semente da mulher (Gn 3.15).

Sendo assim, o pacto entre Deus e Abraão (Gn 12, 15, 17 e 22) é a renovação do Pacto da Graça já feito com Adão (Gn 3.15) e encontra seu cumprimento em Jesus (Gl 3.29) com a Nova Aliança, anunciada por Jeremias (Jr 31.27ss; Hb 8). As promessas quanto à terra feitas a Abraão encontram sua realização nas bênçãos da Nova Aliança e no estado final dos crentes (Hb 3.18 – 4.16; 8; 11.10), não havendo uma diferença de pactos mas uma renovada continuidade e o cumprimento da Aliança de Graça. Portanto, não há motivo para diferenciar Israel e Igreja já que ambos são o povo escolhido de Deus que desfrutam da mesma salvação graciosa dada por Cristo e em quem não há mais divisão, mas apenas um só povo (Ef 2.11ss).

Esta visão unificada, então, dá ensejo para o entendimento espiritual das profecias referente à nação de Israel quanto à terra e ao reinado messiânico davídico que encontram seu cumprimento sobre a igreja e em Cristo, que reina assentado à direita de Deus (At 2.25-36; Ef 1.20-23).

A lei mosaica é enxergada como uma administração temporária dentro do Pacto da Graça e que tinha por propósito tipificar o cumprimento maior na Nova Aliança. Israel não continuara em sua terra por não cumprir os termos da Antiga Aliança ou Lei Mosaica que por sua vez era uma republicação do Pacto das Obras, não tendo mais o poder de conceder vida eterna, mas sim, de delimitar as condições de vida ou morte dentro da terra prometida.
Isto posto, a Antiga Aliança não tem valor algum diante da Nova Aliança e todos os aspectos cerimoniais e civis perdem seu valor como norma de vida. Apenas os aspectos morais é que permanecem para os crentes que estão sob a Nova Aliança, pois, tais aspectos não estavam presos à Antiga Aliança, e sim, ao caráter de Deus.

De modo prático, toda a referência a Israel no Antigo Testamento será diretamente aplicado à Igreja, tanto no que diz respeito às qualidades quanto ao cumprimento profético. Por exemplo, uma das revistas de escola dominical da SOCEP, de cunho aliancista, dedica-se a abordar o tema "Igrejas do Novo Testamento" e no primeiro capítulo ao tratar sobre analogias referente à Igreja, diz que nós somos o rebanho de Deus, apoiando-se em Salmos 100.3. O mesmo pode ser dito quanto a visão de um dos ex-professores do presente escritor que afirmara que Isaías 11.6, ao falar do lobo convivendo com o cordeiro, se cumpre na igreja onde pessoas que antes viviam como inimigas, ao se converterem, passam a conviver em paz.

A maneira como enxergam a continuidade da observância do aspecto moral contido no Pentateuco é exemplificada pela própria Confissão de Westminster, que vê o domingo como sábado cristão a ser obrigatoriamente observado pela Igreja, que anteriormente era o último dia da semana e, agora (isto é, a partir da ressurreição de Cristo), tornou-se o domingo.

O Dispensacionalismo

A hermenêutica dispensacionalista entende que dentro da revelação bíblica há várias épocas, cada uma marcada pela maneira distinta de Deus tratar com o homem, não quanto à salvação (pois esta sempre se dá por causa da graça de Deus, com base na obra de Cristo e por meio da fé), mas quanto à regra de vida. Cada uma dessas diversas formas de Deus se relacionar com o homem é chamada dispensação. Geralmente, a dispensação é marcada por um progresso na revelação de Deus ao homem (uma ampliação do que já fora revelado), pela exigência divina a ser administrada pelo homem, o fracasso humano em cumprir tal administração e o juízo de Deus como conseqüência deste fracasso. A atenção, então, se encontra na incapacidade humana de cumprir os requisitos divinos e sua total dependência da graça de Deus. O número de dispensações não encontra concordância dentro do próprio sistema. Devido ao trato diferente Deus-homem em cada época, se crê que o conteúdo da fé é distinto, também, como no caso de Abraão que não foi justificado por crer na obra redentora de Cristo, mas por crer em Deus, ou seja na graciosa promessa que Este havia feito a ele com respeito ao filho que lhe daria (Rm 4.1-22). Não que a base da salvação não fosse Cristo (Rm 3.23-26), mas o conteúdo era diferente da presente dispensação da Igreja (Rm 4.23-25; 3.21-23). Sempre o conteúdo estará relacionado à graça de Deus e à necessidade da fé humana nesta graça. Mas não é, necessariamente, especifico quanto à obra redentora do Salvador que, sem dúvida, é a base.

Tendo isso em mente, fica clara a distinção da maneira de Deus lidar com a humanidade quanto ao modo de vida, como, também, ao conteúdo de salvação. E assim, as promessas de Deus são respeitadas quanto à sua distinção, como também, a diferença no plano de Deus com Israel e com a Igreja (Rm 11.11-32; Gl 6.14-16). A promessa que Deus fizera a Abraão e à sua descendência (Gn 12, 15, 17, 22) e renovara na Nova Aliança (Jr 31.27ss; Ez 36) com respeito à terra prometida, há de ser cumprida literalmente com Israel. As promessas feitas a Davi e, conseqüentemente, a Israel, também terão seu cumprimento literal (2 Sm 7; Dn 7; Mt 24.29-31; Lc 1.30-33; Ap 19 – 20.9). A renovação espiritual prometida pelos profetas sobre Israel (Is 1.24-27; 44.1-5; Jr 31.27ss; Ez 36 – 37; Rm 11.11-32) se realizará com este povo.

Por mais que houvesse confusão no dispensacionalismo clássico, é admitido no dispensacionalismo desenvolvido, conhecido como progressivo, que a igreja desfruta de bênçãos da Nova Aliança (At 2.14-36). E, além disso, a igreja já não é mais vista como um parêntese no plano de Deus para Israel, mas a continuidade da promessa de por meio de Abraão abençoar todas as famílias da terra (Gn 12.3; Gl 3.6-29). Embora a Igreja não seja Israel, o verdadeiro Israel está contido na igreja nesta presente era (Rm 11.1-7; Ef 2.11-18).

Assim como houve um tratamento peculiar com Israel, o mesmo se dá com a Igreja. Esta já não está mais sob a Lei e por isso, não está obrigada a cumprí-la (Rm 6.14, 15; 2 Co 3.1-11). Nem por isso, o Antigo Testamento perde seu valor, mas continua a trazer princípios acerca de Deus e de Sua vontade para a prática da Igreja (Rm 15.3-5; 1 Co 10.1-13; 2 Tm 3.16, 17).

Demonstrando de modo prático e usando os próprios exemplos dados acima acerca do lidar hermenêutico aliancista, um dispensacionalista jamais usaria Salmo 100.3 para aplicá-lo à Igreja, pois, ali se refere especificamente a Israel. Certamente, mostraria que em João 10 a Igreja é comparada a um rebanho do qual Cristo é o Pastor, especialmente pelo verso 16 que indica a inclusão de gentios neste rebanho (cf. Jo 12.20-23, 31-33).

Ainda nos exemplos, Isaías 11.6 seria visto como uma profecia por se cumprir, contemporânea a uma restauração de Israel à sua terra (11.11-12), uma renovação espiritual do mesmo (11.13) e supremacia sobre as outras nações (11.14-16). O quarto mandamento já não é visto como obrigatório, pois, não existe uma ratificação no Novo, ao contrário, a guarda ou não do sábado é algo indiferente (Rm 14.1-6; Cl 2.16-17).

Conclusão
Tendo em vista os apontamentos acima, a proposta deste texto se cumpre ao mostrar as diferenças básicas do modo único e contínuo aliancista de enxergar o plano de Deus em sua relação com o homem e a maneira contínua, mas distinta, deste processo, apresentada pelo dispensacionalismo. Tais visões influenciam radicalmente a interpretação quanto à relação Israel-Igreja, ao cumprimento profético e à aplicabilidade da lei à vida da Igreja, como fora demonstrado e aplicado.

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