segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O CONTEXTO HISTÓRICO DAS PROFECIAS DO DEUTERO-ISAÍAS (Is 40 - 55)


INTRODUÇÃO

Nos capítulos 40 – 55 de Isaías, o profeta que viveu durante a segunda metade do século VIII a.C., encontra-se, por meio de uma visão, num contexto histórico bem posterior ao seu. Ele direciona sua mensagem aos judeus exilados na Babilônia, que viviam longe de sua terra (40.1-2; 42.22, 24; 48.20; 50.1-2), após a destruição de Jerusalém e do templo (44.26-28; 51.3; 52.9) e sem esperança de retorno a Judá (40.27-28). Diante disso, Isaías anuncia a queda de Babilônia perante Ciro, o imperador medo-persa (46.1-2; 47.1-15) e, conseqüentemente, a libertação dos judeus e seu retorno à Judá, sua terra natal (40.1-5; 43.14; 44.24-28; 45.1-7).[1]

Com estes dados introdutórios observados, segue-se abaixo uma análise do ambiente histórico que cercou os acontecimentos mencionados e profetizados no Deutero-Isaías.[2]

A QUEDA DE JERUSALÉM

Após a batalha de Carquemis, em 605 a.C., ao receber a notícia da morte de seu pai, o príncipe Nabucodonosor retorna para a Babilônia e, no meio do caminho, ataca Judá e a saqueia, submetendo o rei Jeoaquim como seu vassalo e levando consigo alguns judeus cativos (2 Rs 24.1). Este foi o início do domínio babilônio sobre Jerusalém. Outras duas deportações da população judaica ocorreram em 597, em que o próprio rei Joaquim (filho de Jeoaquim) foi levado cativo e seu tio posto em seu lugar (2 Rs 24.10-17). Neste ataque contra Jerusalém, objetos do templo foram levados para a Babilônia. Por fim, no ano de 586 a.C., Zedequias, tio de Joaquim, após uma rebelião, acaba sendo exilado[3] e a cidade de Jerusalém bem como o templo foram destruídos por Nabucodonosor (2 Rs 24.20 – 25.26).[4]

O CATIVEIRO BABILÔNICO

Depois das deportações de judeus para a Babilônia, apenas os pobres e miseráveis permaneceram na terra,[5] enquanto a elite da sociedade hebraica encontrava-se exilada na capital do império de sua época. Tanto a literatura bíblica, bem como dados arqueológicos mostram que os judeus gozaram de certa liberdade durante seu cativeiro, ainda que não fossem totalmente livres, tinham autonomia para construir suas casas, dedicar-se à agricultura (Jr 29.5ss)[6] e ao comércio.[7] Provavelmente, moravam em colônias judaicas (cf. Ez 3.15; Ed 2.59. 8.17)

Durante o período de exílio, Judá teve diante de si o desafio de permanecer fiel a seu Deus, YHWH, enquanto os deuses babilônios com seus templos magníficos e com a beleza do império, pareceriam superiores a Ele.[8] Por isso, houve a necessidade de Isaías lembrar constantemente o povo acerca da incomparabilidade e grandeza do Deus de Israel em relação aos ídolos e líderes mundiais (cf. 40.12ss; 44.6-22). Dois profetas exílicos que foram muito importantes nesta época foram Jeremias (em Jerusalém – 597-588) e Ezequiel (na Babilônia – 593-571).[9]

O IMPÉRIO BABILÔNICO

O império babilônico era a maior potência política na época da queda de Jerusalém (605 a.C), governada pelo capaz Nabucodonosor que, depois de conquistar Judá, ainda expandiu seu império e impediu o avanço da Média e da Lídia.[10] Após a sua morte em 562, Evil-Merodaque, seu filho, reinou por pouco tempo, devido a uma conspiração familiar de seu cunhado.[11] Evil-Merodaque foi quem concedeu a soltura do rei Joaquim da prisão, em 560 (2 Rs 25.27ss).

Após o término da dinastia de Nabopolasar, Nabonido, um nobre babilônico, assume o poder imperial, em 555 a.C. Por ser a Babilônia o centro de adoração a Marduque, Nabonido é visto com grande hostilidade, já que era adorador de Sin, o deus-lua, e tentara implementar a adoração a Sin em lugar de Marduque. Diante da forte oposição dos sacerdotes de Marduque, ele se muda para o deserto da Arábia, onde empreende mais algumas campanhas militares e deixa como co-regente do governo o seu filho Belsazar. Todavia, a situação de conflito dentro do império babilônico, entre os poderes político e religioso, acabou por proporcionar sua queda em 539 a.C. perante os persas.

A CONQUISTA DA BABILÔNIA PELOS PERSAS E O RETORNO DOS JUDEUS DO CATIVEIRO

No período que cercou os acontecimentos da conquista de Jerusalém por Nabucodonosor, os persas eram apenas uma província no sudoeste do Irã, vassala dos medos, os quais dominavam toda a região norte da Mesopotãmia e Irã. Durante o começo do século VI a.C., Cambises I (600-559) era o governante de Anshã, o pequeno reino Pérsia, e casou-se com a filha do seu suserano medo, Astíages (585-550).

O filho do casamento unificador das duas famílias reais se chamava Ciro II (559-530), o qual se rebelou contra seu avô Astíages e tomou o poder do novo império medo-persa. Após tornar-se imperador, Ciro II conquistou o poderoso reino da Lídia e tomou as províncias que pertenciam aos babilônios, criando um império grandioso. Passados alguns anos, em 539 a.C., Ciro investiu contra a Babilônia, contou com a ajuda de seu general Gubaru, governante de Elão, e conquistou a cidade sem nenhuma batalha e sem qualquer resistência. Os babilônios estavam cansados da política de Nabonido e se renderam facilmente ao governo de Ciro, por sua característica tolerante e por ser eclético em seu ponto de vista cultural e religioso. Ele mesmo passou a apoiar e participar da adoração a Marduque.[12]

No ano seguinte à conquista da Babilônia, em 538 a.C., Ciro cumpre as profecias de Isaías 44.26-28 e 45.1-25, na qual é retratado como o agente da salvação divina em prol de Israel, e decreta a autorização do retorno dos judeus para a sua terra. Ainda que o decreto do novo imperador ocorrera de forma geral a todos os exilados das nações,[13] os judeus cativos compreenderam que tal permissão era obra do próprio YHWH (cf. 2 Cr 36.22-23; Ed 1.1-4). Não apenas o retorno é permitido ao povo de Deus, mas, também, há a ordem para a reconstrução do templo e para o transporte dos vasos sagrados de volta para Jerusalém, além do incentivo de ofertas para ajudar os que empreenderiam a reconstrução da cidade (Ed 1.1-11).[14]

Diante disso, o primeiro grupo de judeus volta a Jerusalém (Ed 1.11), repovoa Judá (Ed 2.1-70) e inicia a construção do novo templo (Ed 5.16), debaixo da liderança do príncipe Sesbassar (Ed 5.14), provavelmente filho do rei Jeoaquim (cf. 1 Cr 3.18).[15]

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.


CONSTABLE, Robert L. Notes on Isaiah. Disponível em www.soniclight.com. Acessado em Junho de 2008.


D’ABADIA, Joacir Soares. O Deutero-Isaías. Disponível em http://www.webartigos.com/articles/17511/1/o-deutero-isaias/pagina.html. Acessado em 13 de Outubro de 2009.


MERRIL, Eugene H. História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.


ORR, James. The international Standard Bible encyclopedia.
Grand Rapids, Michigan: Eerdans, 1939. (Versão eletrônica).


RIDDERBOS, J. Isaías: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.


[1] RIDDERBOS, J. Isaías: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.

[2] No presente trabalho este termo é apenas técnico, como referência à porção de Isaías 40-55. Este aluno crê na autoria única do livro pelo profeta Isaías, do século VIII a.C.

[3] NICOL, T. “Captivity”. In: ORR, James. The international Standard Bible encyclopedia. Grand Rapids, Michigan: Eerdans, 1939. (Versão eletrônica).

[4] MERRIL, Eugene H. História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. 497-498.;

[5] MERRIL, Eugene H. Op cit.. p. 510; BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978. p. 464.

[6] BRIGHT, John. Op cit. p. 467.

[7] MERRIL, Eugene H. Op cit. p. 511.

[8] BRIGHT, John. Op cit. p. 469-471.

[9] NICOL, T. “Captivity”. Op cit.

[10] BRIGHT, John. Op cit. p. 475.

[11]D’ABADIA, Joacir Soares. O Deutero-Isaías. Disponível em http://www.webartigos.com/articles/17511/1/o-deutero-isaias/pagina.html. Acessado em 13 de Outubro de 2009.

[12] BRIGHT, John. Op cit. p. 487-488.

[13] MERRIL, Eugene H. Op cit. p. 521.

[14] BRIGHT, John. Op cit. p. 491-492.

[15] MERRIL, Eugene H. Op cit. p. 522-523.

Um comentário:

filosofia disse...

Olá caro pesquisador Tiago Abdalla T. Neto... ainda não li seu texto "O CONTEXTO HISTÓRICO DAS PROFECIAS DO DEUTERO-ISAÍAS (Is 40 - 55)", mas vou lê-lo... uma coisa já me deixa em paz: poder contribuir com sua pesquisa com o texto que escrevi no site "WEBARTIGOS"... Deus Deus lhe impire sempre mais!!! Ele ama tudos os seus... Joacir Soares d'Abadia

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