segunda-feira, 9 de novembro de 2009

REPENSANDO A ADOÇÃO BIBLICAMENTE

INTRODUÇÃO AO TEMA

Ultimamente, por algumas razões, tenho pensado bastante sobre a questão da adoção de filhos. Especialmente, refletindo sobre o conceito popular de que “filho adotivo” é sinônimo de “filho problemático”. Geralmente, o argumento que ouço é o da experiência; e, para isso, citam-se diversos exemplos de filhos adotivos que deram problemas para os seus pais e se desviaram do evangelho.

Quando escuto esse tipo de discussão não consigo ser facilmente convencido por tal filosofia popular. Primeiramente, porque como cristão-protestante, creio que as Escrituras devem nortear todas as áreas de nossas vidas, inclusive a decisão sobre adotar uma criança. Em segundo lugar, pela falácia de tal argumento. Quantos filhos naturais não dão problemas aos seus pais? Além disso, o que seria melhor, deixar uma criança entregue à própria sorte, num orfanato, debaixo da influência de ímpios, sem uma estrutura familiar, ou arregaçar as mangas, ajudar e expressar de forma concreta o amor do próprio Deus ao órfão? “Pai dos órfãos e juiz das viúvas é Deus em sua santa morada” (Sl 68.5).

Por fim, percebo da parte de pais que adotam, uma atitude piedosa, a expressão da verdadeira religião descrita por Tiago: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.” “Visitar” aqui não é, simplesmente, ir a um orfanato, uma vez por mês com a igreja, mas ir de encontro às necessidades (“tribulações”) dos órfãos, em todos os aspectos, inclusive a paternidade e maternidade. Foi esta mesma disposição piedosa que vi em meus pais quando adotaram minhas duas irmãs há 20 e 15 anos atrás e, também, por parte de John Piper quando adotou sua filha Talitha:

“No dia 15 de Dezembro [1995], John, Noël, Abraham e Barnabas deram as boas-vindas à Talitha Ruth de dois meses de idade. Ela veio aos braços de seu pai com um imenso sorriso...

... Nós agradecemos a Deus, do fundo de nosso coração, por vocês, nossos amigos. Talitha é abençoada por ser bem-vinda não apenas por nossa família física, mas também, por nossa família de irmãos e irmãs crentes. Vocês já têm derramado tal amor, esperança e alegria sobre nós.

Nossa mais profunda oração pela Talitha é que, num dia, ela esteja diante do trono de Deus, entre os santos – entre todos vocês – por ser ela adotada uma segunda vez, por Deus.”[1]

Diante disso, compartilharei em forma de artigos, trechos de um capítulo escrito pela Dra. Carol Amy, no livro “Mulheres ajudando mulheres”, editado por duas conselheiras bíblicas, Carol Cornish e Elyse Fitzpatrick. A abordagem bíblica da Dra. Amy é perspicaz e profunda, sendo impossível lê-la sem uma reflexão séria. As duas editoras do livro são conselheiras bíblicas sérias e destaco, especialmente, a Elyse Fitzpatrick que ganhou minha admiração e respeito por sua confiança e defesa da suficiência das Escrituras.

Aguardem o próximo post e a primeira parte dos artigos de Carol Amy.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

É TOLICE ME CASAR COM ALGUÉM QUE EU SEI QUE MORRERÁ LOGO?


Pergunta ao Pr. John Piper:

Eu quero me casar, mas a mulher que eu amo tem uma doença crônica. Isto está se tornando cada vez pior. Alguns membros de minha família me dizem que eu não deveria me comprometer com ela, mas eu creio que Deus tem me chamado a servi-la desta forma. É tolice casar com alguém que morrerá logo?

Resposta do Pr. John Piper:

Isso é tolice? Não, isto não é tolice. Não, se todas as outras coisas estão em ordem, certo? Qualquer casamento poderia ser tolice, mas esta não é a razão principal.

Casar com um descrente seria tolice. Casar quando você é totalmente incompatível teologicamente, seria tolice. Casar quando você é imaturo ou não tem recursos seria tolice. Há muitas razões pelas quais um casamento seria tolo. Mas, amar alguém que está morrendo não é uma delas, eu creio; especialmente quando você está livre para casar quando a esposa morre.

Agora, eu sei que a pessoa que pergunta isso, não está pensando desta forma, como: “Ó, eu me casarei novamente dentro de três anos depois que ela morrer”. Esta não é a forma que eles pensam! Eles pensam: “Eu amo esta pessoa, eu quero viver com esta pessoa e quero cuidardela!”. Eu creio que isto é lindo.

Por isso, eu fiz o casamento de um homem que estava morrendo de leucemia e o casamento durou menos que um ano. Todo mundo sabia que isso duraria menos que um ano. Isto é impressionante. Ela era linda e ele, belo. Nove meses depois ele estava morto e este era o esperado.

Eu conheci outra situação em que uma mulher casou com um homem com AIDS que havia vencido suas inclinações homossexuais. Esse casamento durou, talvez, cerca de seis anos e, então, ele morreu. E isso foi lindo.

Eu sei que deve ser muito doloroso para os pais olharem para isso e pensar: “Você não percebe quanto sofrimento isso trará para a sua vida?” Mas o que mais é novo e certo acerca da vida e do casamento?

Assim, eu diria que esta não é a principal questão aqui. A principal questão é: Você é capaz – teologicamente, pessoalmente, no uso de recursos – de amar harmoniosamente, docemente e profundamente, juntamente com Jesus, neste casamento?

Tradução: Tiago Abdalla

Texto original, disponível em inglês no link:

http://www.desiringgod.org/ResourceLibrary/AskPastorJohn/ByTopic/45/4208_Is_it_foolish_to_marry_someone_I_know_will_die_soon/

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

QUAL O SIGNIFICADO DO BATISMO?

Romanos 6.1-7

INTRODUÇÃO

Geralmente, a palavra batismo/batizado é ligada com o rito de iniciação de alguém em um determinado grupo, religioso ou não. Lembro quando nossa família estava compartilhando de Jesus a uma outra família, em que a mãe e o filho lutavam capoeira, não era raro ouvirmos eles comentarem que tal dia haveria o batizado de algumas pessoas na capoeira, isto é, um rito em que alguém era introduzido oficialmente naquela arte marcial, lutando com o seu próprio mestre. Mas, o mais comum em nossa cultura é ver o batismo, geralmente, atrelado à introdução de uma criança à religião de seus pais, como ocorre no catolicismo romano.

O batismo já até adquiriu um sentido pejorativo. Por exemplo, quando falamos que a gasolina ou combustível foi batizado, quer dizer que ele foi adulterado, sendo misturado com outros elementos.

Ao olharmos para o sentido que a Bíblia dá ao batismo, percebemos um significado profundo, que vai além de qualquer daqueles comumente entendidos por nós. Por isso, quando buscamos uma compreensão adequada da idéia contida neste símbolo, precisamos nos voltar para as Escrituras e permitir que elas falem conosco sem impor pressuposições pessoais ou conceitos teológicos estranhos às elas.

ROMANOS 6.1-7

Que diremos então? Continuaremos pecando para que a graça aumente? De maneira nenhuma! Nós, os que morremos para o pecado, como podemos continuar vivendo nele? Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados em sua morte? Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.

Se dessa forma fomos unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição. Pois sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não mais sejamos escravos do pecado; pois quem morreu, foi justificado do pecado.

O BATISMO É A REPRESENTAÇÃO DE NOSSA UNIÃO COM CRISTO EM SUA MORTE PARA O PECADO E DA JUSTIÇA CONCEDIDA A NÓS DA PARTE DE DEUS

O texto de Romanos 6 é um dos trechos mais profundos e belos acerca do significado do batismo para aqueles que depositaram sua fé em Cristo. No capítulo anterior, o apóstolo Paulo discorreu sobre os efeitos que o pecado do primeiro homem, Adão, trouxe sobre toda a humanidade (a morte, o julgamento e condenação) e, ao mesmo tempo, os benefícios que Jesus Cristo, o homem perfeito alcançou para aqueles que nEle confiam (justificação e vida – Rm 5.12-19). A conclusão dele foi que, ainda que o pecado de Adão promoveu a desfiguração da humanidade e sua condenação diante de Deus, a graça concedida por Deus por meio de Jesus Cristo, foi muito maior e superou o pecado, proporcionando a vida eterna (5.20-21).

No presente capítulo, Paulo lida com um dilema que surgiria decorrente de sua afirmação em Romanos 5. Se o pecado proporcionou a demonstração da imensa graça de Deus, será que nós não deveríamos pecar ainda mais, para que Deus mostrasse quão ainda maior é a sua graça? A resposta taxativa do apóstolo é “De modo nenhum!” ou “Nem pensem nisso!” (6.1). Pois, nossa união com Cristo implica em morte para o pecado, isto é, no fim de seu domínio sobre nós.

Então, seria incoerente vivermos uma vida que não é mais realidade para nós diante daquilo que Cristo alcançou na cruz (6.2). Ele nos libertou do pecado, portanto, continuar no pecado é rejeitar sua obra salvadora na cruz. É como se uma borboleta que, após passar por uma metamorfose radical de lagarta para borboleta, continuasse rastejando pelo chão e pelos troncos de árvores, no lugar de voar como uma borboleta e alegrar o ambiente, conforme sua nova identidade.

A figura que Paulo usará da união do cristão com Cristo será o batismo pelo qual os cristãos de Roma passaram. Aqui, cabe uma observação. Ao longo do livro de Romanos, o argumento do apóstolo é que nós somos salvos de nossos pecados, não por algo que fizemos, mas pelo sacrifício de Jesus por nós na cruz. É nossa confiança nesse ato de Deus em Jesus que nos dá salvação:

“... pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça ... para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus ... Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.”. (Rm 3.23-26, 28).

“Pelo que isso lhe foi também imputado para justiça ... mas também por nossa causa, posto que a nós igualmente nos será imputado, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação. Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Rm 4.22, 24 – 5.1).

O batismo, assim, proclama a justificação diante de Deus daqueles que, pela fé, se uniram a Cristo em sua morte e experimentaram tanto a libertação da culpa quanto do poder do pecado (6.3). A união é tão forte que se descreve com uma cena comum do século I. Eram bem conhecidas naquela época, as sepulturas duplas, em que marido e esposa, bem como pais e filhos eram depositados numa sepultura conjunta. Da mesma forma, o batismo representa o sepultamento do crente com Cristo, a evidência de que o pecado já não tem mais direito de domínio sobre os crentes (6.4; cf. Cl 2.12). Não se pode reivindicar nada de um morto, nenhuma exigência mais pode ser feita.

Nossa identificação com Cristo em sua morte, inclui uma identificação com sua crucificação. O “velho homem”, no verso 6, deve ser uma referência à antiga condição, antes de Cristo, quando estávamos debaixo da condenação do pecado trazida por Adão (5.12-19). Mas agora, fomos justificados diante de Deus com a crucificação desta antiga condição e nosso corpo, antes instrumento de domínio do pecado, agora foi liberto de sua antiga escravidão (6.6). “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.19-20).

A conclusão de Paulo é que nossa condição de morte e separação da antiga vida demonstra nossa justificação do pecado (6.7).

O BATISMO É A SINALIZAÇÃO DE UMA NOVA VIDA COM CRISTO

Nossa união com Cristo não implica apenas em morte, mas, também, em uma nova vida, alcançada por sua ressurreição (6.5). Esse acontecimento sobrenatural foi realizado pelo próprio Deus mediante sua glória, isto é, seu grande poder (v. 4; cf. Ef 1.19-20; Cl 2.12), algo impossível de ser realizado pelas forças humanas, foi efetuado por Deus como demonstração de que a obra de Jesus é capaz de nos perdoar e justificar diante dEle (Rm 4.24-25).

A ressurreição de Jesus faz dos salvos novas criaturas (2 Co 5.17) e lhes proporciona um novo estilo de vida, não mais voltado para os seus desejos egoístas, mas para uma vida que agrada a Deus (cf. Rm 6.10-11; cf. Ef 2.4-6, 10). A nossa salvação, portanto, não é apenas um passaporte que nos garante a entrada no céu. A nossa justificação diante de Deus pela fé traz junto consigo uma relação nova com Deus e um caráter transformado à imagem dEle (Cl 3.10). Conseqüentemente, há uma busca por crescer, a cada dia, no caráter e qualidades de Cristo, que são concedidos a nós, pelo Espírito de Deus (Gl 5.22-23).

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O CONTEXTO HISTÓRICO DAS PROFECIAS DO DEUTERO-ISAÍAS (Is 40 - 55)


INTRODUÇÃO

Nos capítulos 40 – 55 de Isaías, o profeta que viveu durante a segunda metade do século VIII a.C., encontra-se, por meio de uma visão, num contexto histórico bem posterior ao seu. Ele direciona sua mensagem aos judeus exilados na Babilônia, que viviam longe de sua terra (40.1-2; 42.22, 24; 48.20; 50.1-2), após a destruição de Jerusalém e do templo (44.26-28; 51.3; 52.9) e sem esperança de retorno a Judá (40.27-28). Diante disso, Isaías anuncia a queda de Babilônia perante Ciro, o imperador medo-persa (46.1-2; 47.1-15) e, conseqüentemente, a libertação dos judeus e seu retorno à Judá, sua terra natal (40.1-5; 43.14; 44.24-28; 45.1-7).[1]

Com estes dados introdutórios observados, segue-se abaixo uma análise do ambiente histórico que cercou os acontecimentos mencionados e profetizados no Deutero-Isaías.[2]

A QUEDA DE JERUSALÉM

Após a batalha de Carquemis, em 605 a.C., ao receber a notícia da morte de seu pai, o príncipe Nabucodonosor retorna para a Babilônia e, no meio do caminho, ataca Judá e a saqueia, submetendo o rei Jeoaquim como seu vassalo e levando consigo alguns judeus cativos (2 Rs 24.1). Este foi o início do domínio babilônio sobre Jerusalém. Outras duas deportações da população judaica ocorreram em 597, em que o próprio rei Joaquim (filho de Jeoaquim) foi levado cativo e seu tio posto em seu lugar (2 Rs 24.10-17). Neste ataque contra Jerusalém, objetos do templo foram levados para a Babilônia. Por fim, no ano de 586 a.C., Zedequias, tio de Joaquim, após uma rebelião, acaba sendo exilado[3] e a cidade de Jerusalém bem como o templo foram destruídos por Nabucodonosor (2 Rs 24.20 – 25.26).[4]

O CATIVEIRO BABILÔNICO

Depois das deportações de judeus para a Babilônia, apenas os pobres e miseráveis permaneceram na terra,[5] enquanto a elite da sociedade hebraica encontrava-se exilada na capital do império de sua época. Tanto a literatura bíblica, bem como dados arqueológicos mostram que os judeus gozaram de certa liberdade durante seu cativeiro, ainda que não fossem totalmente livres, tinham autonomia para construir suas casas, dedicar-se à agricultura (Jr 29.5ss)[6] e ao comércio.[7] Provavelmente, moravam em colônias judaicas (cf. Ez 3.15; Ed 2.59. 8.17)

Durante o período de exílio, Judá teve diante de si o desafio de permanecer fiel a seu Deus, YHWH, enquanto os deuses babilônios com seus templos magníficos e com a beleza do império, pareceriam superiores a Ele.[8] Por isso, houve a necessidade de Isaías lembrar constantemente o povo acerca da incomparabilidade e grandeza do Deus de Israel em relação aos ídolos e líderes mundiais (cf. 40.12ss; 44.6-22). Dois profetas exílicos que foram muito importantes nesta época foram Jeremias (em Jerusalém – 597-588) e Ezequiel (na Babilônia – 593-571).[9]

O IMPÉRIO BABILÔNICO

O império babilônico era a maior potência política na época da queda de Jerusalém (605 a.C), governada pelo capaz Nabucodonosor que, depois de conquistar Judá, ainda expandiu seu império e impediu o avanço da Média e da Lídia.[10] Após a sua morte em 562, Evil-Merodaque, seu filho, reinou por pouco tempo, devido a uma conspiração familiar de seu cunhado.[11] Evil-Merodaque foi quem concedeu a soltura do rei Joaquim da prisão, em 560 (2 Rs 25.27ss).

Após o término da dinastia de Nabopolasar, Nabonido, um nobre babilônico, assume o poder imperial, em 555 a.C. Por ser a Babilônia o centro de adoração a Marduque, Nabonido é visto com grande hostilidade, já que era adorador de Sin, o deus-lua, e tentara implementar a adoração a Sin em lugar de Marduque. Diante da forte oposição dos sacerdotes de Marduque, ele se muda para o deserto da Arábia, onde empreende mais algumas campanhas militares e deixa como co-regente do governo o seu filho Belsazar. Todavia, a situação de conflito dentro do império babilônico, entre os poderes político e religioso, acabou por proporcionar sua queda em 539 a.C. perante os persas.

A CONQUISTA DA BABILÔNIA PELOS PERSAS E O RETORNO DOS JUDEUS DO CATIVEIRO

No período que cercou os acontecimentos da conquista de Jerusalém por Nabucodonosor, os persas eram apenas uma província no sudoeste do Irã, vassala dos medos, os quais dominavam toda a região norte da Mesopotãmia e Irã. Durante o começo do século VI a.C., Cambises I (600-559) era o governante de Anshã, o pequeno reino Pérsia, e casou-se com a filha do seu suserano medo, Astíages (585-550).

O filho do casamento unificador das duas famílias reais se chamava Ciro II (559-530), o qual se rebelou contra seu avô Astíages e tomou o poder do novo império medo-persa. Após tornar-se imperador, Ciro II conquistou o poderoso reino da Lídia e tomou as províncias que pertenciam aos babilônios, criando um império grandioso. Passados alguns anos, em 539 a.C., Ciro investiu contra a Babilônia, contou com a ajuda de seu general Gubaru, governante de Elão, e conquistou a cidade sem nenhuma batalha e sem qualquer resistência. Os babilônios estavam cansados da política de Nabonido e se renderam facilmente ao governo de Ciro, por sua característica tolerante e por ser eclético em seu ponto de vista cultural e religioso. Ele mesmo passou a apoiar e participar da adoração a Marduque.[12]

No ano seguinte à conquista da Babilônia, em 538 a.C., Ciro cumpre as profecias de Isaías 44.26-28 e 45.1-25, na qual é retratado como o agente da salvação divina em prol de Israel, e decreta a autorização do retorno dos judeus para a sua terra. Ainda que o decreto do novo imperador ocorrera de forma geral a todos os exilados das nações,[13] os judeus cativos compreenderam que tal permissão era obra do próprio YHWH (cf. 2 Cr 36.22-23; Ed 1.1-4). Não apenas o retorno é permitido ao povo de Deus, mas, também, há a ordem para a reconstrução do templo e para o transporte dos vasos sagrados de volta para Jerusalém, além do incentivo de ofertas para ajudar os que empreenderiam a reconstrução da cidade (Ed 1.1-11).[14]

Diante disso, o primeiro grupo de judeus volta a Jerusalém (Ed 1.11), repovoa Judá (Ed 2.1-70) e inicia a construção do novo templo (Ed 5.16), debaixo da liderança do príncipe Sesbassar (Ed 5.14), provavelmente filho do rei Jeoaquim (cf. 1 Cr 3.18).[15]

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.


CONSTABLE, Robert L. Notes on Isaiah. Disponível em www.soniclight.com. Acessado em Junho de 2008.


D’ABADIA, Joacir Soares. O Deutero-Isaías. Disponível em http://www.webartigos.com/articles/17511/1/o-deutero-isaias/pagina.html. Acessado em 13 de Outubro de 2009.


MERRIL, Eugene H. História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.


ORR, James. The international Standard Bible encyclopedia.
Grand Rapids, Michigan: Eerdans, 1939. (Versão eletrônica).


RIDDERBOS, J. Isaías: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.


[1] RIDDERBOS, J. Isaías: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.

[2] No presente trabalho este termo é apenas técnico, como referência à porção de Isaías 40-55. Este aluno crê na autoria única do livro pelo profeta Isaías, do século VIII a.C.

[3] NICOL, T. “Captivity”. In: ORR, James. The international Standard Bible encyclopedia. Grand Rapids, Michigan: Eerdans, 1939. (Versão eletrônica).

[4] MERRIL, Eugene H. História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2001. 497-498.;

[5] MERRIL, Eugene H. Op cit.. p. 510; BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978. p. 464.

[6] BRIGHT, John. Op cit. p. 467.

[7] MERRIL, Eugene H. Op cit. p. 511.

[8] BRIGHT, John. Op cit. p. 469-471.

[9] NICOL, T. “Captivity”. Op cit.

[10] BRIGHT, John. Op cit. p. 475.

[11]D’ABADIA, Joacir Soares. O Deutero-Isaías. Disponível em http://www.webartigos.com/articles/17511/1/o-deutero-isaias/pagina.html. Acessado em 13 de Outubro de 2009.

[12] BRIGHT, John. Op cit. p. 487-488.

[13] MERRIL, Eugene H. Op cit. p. 521.

[14] BRIGHT, John. Op cit. p. 491-492.

[15] MERRIL, Eugene H. Op cit. p. 522-523.

sábado, 26 de setembro de 2009

JESUS: FILHO OU SENHOR DE DAVI?

Marcos 12.35-37


"Ensinando no templo, Jesus perguntou: 'Como os mestres da lei dizem que o Cristo é filho de Davi? O próprio Davi, falando pelo Espírito Santo, disse:

"O Senhor disse ao meu Senhor:
Senta-te à minha direita
até que eu ponha os teus inimigos debaixo de teus pés".

O próprio Davi o chama "Senhor". Como pode, então, ser ele seu filho?'. E a grande multidão o ouvia com prazer."


No texto anterior, Marcos narrou o encontro de Jesus com um mestre da lei sedento pela verdade e sensível ao ensino de Jesus. Agora, o Senhor questiona a forma como os mestres da lei lidavam com as Escrituras e sua visão distorcida sobre o Messias. A temática do “Filho de Davi” (um termo messiânico) não aparece fora de lugar em Marcos. Já durante a peregrinação, um cego, próximo à saída de Jericó, havia reconhecido Jesus como o “Filho de Davi” e rogava por sua compaixão (10.46-48). Além disso, a multidão de peregrinos saudou Jesus na entrada de Jerusalém: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino de Davi, nosso pai! Hosana, nas maiores alturas!” (11.9-10).

Desde 8.27ss, o mestre vem trabalhando com os seus discípulos acerca da tarefa sacrificial do messias e uma visão mais ampla de sua pessoa e obra. Aqui ele rebate um conceito político e nacionalista judeu que limitava o Messias às mesmas funções de Davi e de um governo focado em Israel. Uma passagem judaica antiga definia o filho de Davi como “aquele que despedaça os pecadores como potes de barro” (Salmos de Salomão), em referência aos romanos. Conforme o Antigo Testamento, não é errado pensar no Messias, o futuro rei e salvador de Israel, como o filho de Davi, desde que várias passagens do AT indicam isso (cf. Is 9.2-7; 11.1-9; Jr 23.5-6; Ez 34.23-24; Am 9.11). O grande problema era limitá-lo dentro da obra e identidade do antigo rei Davi. Por isso, Jesus cita o Salmo 110.1, um texto que, muito provavelmente, era reconhecido como messiânico em sua época.

Duas observações importantes iniciais que Jesus faz do Salmo é que ele foi proferido por Davi e que ele disse isso guiado pelo Espírito Santo, uma afirmação comum rabínica para descrever um texto divinamente inspirado. Deste modo, o conteúdo dele era de grande valor e provia fundamento para o argumento de Jesus. No salmo, Davi contempla Deus (Yahweh) dialogando com um rei humano, o qual chama de “meu senhor” (’adonî). O contexto do Salmo 110 indica que esse senhor é um descendente de Davi, já que o seu cetro de poder flui de Sião e ele age como co-regente de Yahweh (Sl 110.2, 5-6; cf. 2 Sm 7.12-16). Assim, a conclusão que Jesus chega é que Davi chama de “senhor” um descendente seu que só pode ser o messias esperado e glorioso. E, se o messias é superior a Davi, isso implica em superioridade como pessoa e em obras.

A implicação clara para o momento é que, se Jesus é claramente o Filho de Davi, aguardado pelo povo, então, os líderes religiosos judaicos tinham diante de si alguém que era superior a Davi, pois era o próprio filho de Deus (1.11; 9.7), e cuja obra superava os feitos de Davi, tanto no escopo espiritual, pois seria capaz de oferecer salvação para muitos (10.45 – uma clara indicação de sacrifício salvífico universal, não apenas aos judeus; cf. 8.31; 10.33-34), e no que tange ao governo universal, já que seu trono se encontra à direita de Deus, não simplesmente em Jerusalém (veja a aplicação dada por Pedro em Atos 2.32-36).

Assim, quando a liderança judaica se opunha a Jesus, se opunha a alguém cuja autoridade deveria fazê-los se curvar, por ser o Rei do universo e maior que Davi; posição esta vindicada por sua ressurreição (Mt 28.18; At 2.32-36; Rm 1.3-4). E rejeitá-lo era negar o único meio de salvação oferecido por Deus a todos, judeus e gentios (cf. 10.45).

Precisamos avaliar de que modo nossa perspectiva acerca de Jesus pode se encontrar, também, distorcida como os judeus daquela época. Talvez, não duvidemos do poder de Jesus, mas muitas vezes o colocamos dentro de pacotes fechados conforme os nossos interesses. Hoje em dia, muitos têm feito de Jesus um milagreiro ou um gênio da lâmpada mágica que existe para acabar com os seus sofrimentos físicos ou lhes dar tudo o que desejam.

Já outros pensam nele como o Senhor de suas vidas apenas nos aspectos religiosos, nunca transformando sua moral nem conduzindo suas decisões. Apenas vão à igreja, cumprem seu tempo devocional com certa dificuldade e acham que, fazendo isso, já estão levando a sério o senhorio de Cristo, sem se preocuparem como seus ensinos e palavras afetam seus relacionamentos com as pessoas ao redor, sua conduta no trabalho, sua vida particular ou familiar.

De que modo as palavras de Cristo como o mandato de “fazermos discípulos” são encaradas por nós? Como as palavras daquele que tem autoridade sobre céus e terra (Mt 28.18-20)? Será que realizamos muitos serviços em nome de Jesus ou cantamos músicas que proclamam o seu senhorio, mas somos resistentes em obedecer sua Palavra (Mt 7.21-23)? Quem dirige a nossa vida dentro da competitividade do mercado, Deus ou Mamom (Mt 6.22-24)? Estamos dispostos a ter Jesus como o Rei de nosso viver, mesmo que isso traga oposição e, até mesmo, o ódio de nossos familiares (Mt 10.34-38)?

Estamos tão suscetíveis a amoldar Jesus aos nossos interesses e perspectivas como os mestres da lei da época de Cristo faziam com o “filho de Davi” e, assim, corremos o risco de deixar de servir o Jesus das Escrituras para servir aos nossos próprios desejos mesquinhos e mundanos.