terça-feira, 1 de abril de 2008

O que Roy B. Zuck tem a dizer sobre dispensacionalismo e aliancismo?

O texto que segue abaixo é extraído do livro texto de hermenêutica em cursos teológicos "A interpretação bíblica", publicado pela editora Vida Nova, do Dr. Roy
B. Zuck, reconhecido acadêmico, dispensacionalista, professor emérito de exposição bíblica do Dallas Theological Seminary, e editor, juntamente com Walvoord, do famoso comentário bíblico "Bible Knowledge Commentary".

A teologia das alianças consiste num sistema teológico centrado na chamada aliança da graça, que foi um acordo entre Deus e os pecadores eleitos pelo qual ele lhes provê graça para salvação. A maioria dos teólogos das alianças também é amilenarista, embora alguns sejam pré-milenaristas. As três doutrinas principais da teologia da aliança são: 1) A "igreja" é formada pelo povo redimido de Deus em todas as eras, não somente pelos da era atual, que se estende do dia de Pentecoste até o Arrebatamento. 2) As alianças abraâmica, davídica e nova encontram cumprimento na era moderna (Os teólogos do pré-milenarismo sustentam que, apesar da possibilidade de haver cumprimento de alguns aspectos dessas três alianças nesta era moderna, haverá também um cumprimento futuro. Os amilenaristas, à semelhança dos teólogos das alianças, negam qualquer cumprimento futuro dessas alianças). 3) O programa divino tem finalidade soteriológica, ou seja, proporcionar salvação para as pessoas.


Em linhas gerais, a teologia dispensacionalista gira em torno de dois conceitos: 1) a igreja não equivale a Israel e 2) o plano divino tem um propósito doxológico, ou seja, glorificar o próprio Deus (Ef 1.6, 12, 14). Com respeito ao primeiro deles, considera-se a distinção entre a igreja e Israel, pois aquela possui um caráter distinto. Paulo escreveu a respeito de uma dispensação na qual Deus eleva tanto os judeus crentes quanto os gentios a uma mesma condição de igualdade como membros do corpo de Cristo. Esse fato era desconhecido nos tempos do Antigo Testamento (Ef 3.5, 6). No Antigo Testamento, desde a época de Moisés, Deus tratava essencialmente com Israel, mas hoje a igreja é composta por judeus e gentios crentes, que formam um único corpo de Cristo, a igreja. Em 1 Coríntios 12.13, lemos do batismo dos crentes no corpo de Cristo, e 10.32 fala da diferença entre Israel e a igreja (RADMACHER In: GUNDRY e KANTZER. Perspectives on evangelical theology. p. 171). A dispensação ou administração vindoura é o futuro reino milenar (Ef 1.10). Romanos 10.1 também faz alusão ao caráter exclusivo de Israel.

Considera-se a diferença entre a igreja e Israel não só pelo caráter bem definido da primeira, mas também por sua época própria. A era da igreja começou após a ressurreição (Ef 1.20-22) e a ascensão de Cristo (Ef 4.7-12). Como todos os crentes nesta era são batizados no corpo de Cristo (1 Co 12.13), o princípio da era da igreja deve ser associado ao início do ministério de batismo do Espírito Santo. Os cristãos gentios na casa de Cornélio, "... assim como nós, receberam o Espírito Santo", afirmou Pedro (At 10.47), e "... caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós no princípio" (At 11.15). A alusão que Pedro fez ao fato de os judeus já terem recebido o Espírito Santo e de que o Espírito Santo desceu sobre eles "como também sobre nós no princípio" refere-se ao que aconteceu no dia de Pentecoste, conforme relata Atos 2. Está claro que é desse acontecimento que ele está falando, pois o Senhor dissera pouco antes, enquanto ascendia aos céus, que eles haveriam de receber o Espírito Santo (At 1.8).

A igreja, que nasceu no dia de Pentecoste, possui um programa próprio, que distingue a era moderna da dispensação inaugurada com o fornecimento de lei a Israel. Essa nação recebeu promessas especiais, enquanto outras foram feitas à igreja, que é o corpo de Cristo. É claro que em cada dispensação as pessoas são salvas pela fé, não por obras (ênfase minha).

Além disso, Deus tratava com a humanidade de forma diferente antes da instituição da lei mosaica. E, antes da queda do homem, em Gênesis 3, havia outra dispensação em vigor. Assim, as Escrituras distiguem pelo menos cinco dispensações.

Os dispensacionalistas partem de um estudo hermenêutico coerente, considerando a interpretação normal, gramatical um fundamento essencial à sua hermenêutica. Com essa base, fazem a distinção entre Israel e igreja quanto à dispensação. Como expressou RadMacher: "a interpretação literal [...] é a 'linha-mestra' do dispensacionalismo [...]. Sem dúvida, o mais significativo desses [princípios] é a manuntenção da diferenciação entre Israel e a igreja" (RADMACHER In: GUNDRY e KANTZER, p. 171). Ryrie também comentou essa questão: "Se a interpretação direta e normal consiste no único princípio hermenêutico válido e se for aplicada coerentemente, a pessoa se tornará dispensacionalista" (RYRIE, Dispensacionalism today, p. 21). Aceitar os termos Israel e Igreja em sentido normal, literal, equivale a conservar sua distinção. Israel sempre significa o Israel étnico, nunca se confundindo com o termo igreja, nem as Escrituras jamais empregam igreja em substituição ou como sinônimo de Israel.

Como já disse, o segundo conceito da teologia dispensacionalista é o programa doxológico de Deus. Embora os teólogos das alianças não neguem que o plano divino visa a glorificá-lo (mediante a aliança da graça atualmente em vigor), parece que eles enfatizam mais o propósito soteriológico do Senhor. Por exemplo, Hoekema escreveu que o objetivo do reino de Deus "é redimir o povo de Deus do pecado" (HOEKEMA In: CLOUSE. The meaning of the millennium. p. 181). Os dispensacionalistas também salientam que o plano divino de salvação pela fé unifica todas as dispensações, ao mesmo tempo em que eleva a graça de Deus à condição de pincípio fundamental que unifica todas as dispensações (ênfase minha). Em outras palavras, o programa de Deus em cada dispensação visa a glorificá-lo. Se por um lado, os teólogos das alianças e os dispensacionalistas ressaltam a glória de Deus (doxologia) e a salvação (soteriologia), os dispensacionalistas pregam que o grande propósito de Deus em cada dispensação é glorificar a si mesmo. Um dos meios principais de fazer isso é mediante a salvação pela fé (em todas as eras), mas o alvo final é sua glória.

ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1994.

2 comentários:

esequiel lima disse...

Tiago,

onde consigo o "The Bible Knowledge Commentary"? Tem em alguma biblioteca por aqui ou alguma loja?

Tiago Abdalla disse...

Esequiel,

não sei se você já comprou o "The Bible Knowledge" (peço desculpas pela demora na resposta), mas eu indicaria a Christian Books, eles têm um ótimo preço e um frete por um baixo valor.

Dê uma olhada em:

http://www.christianbook.com/bible-knowledge-commentary-new-testament-volumes/9780896938007/pd/693800X?item_code=WW&netp_id=183661&event=ESRCN&view=details

Abração!

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