sábado, 6 de setembro de 2008

O PODER DO REINO E A GLÓRIA DO REI
Parte 3

9 Enquanto desciam do monte, Jesus lhes ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do homem tivesse ressuscitado dos mortos. 10 Eles guardaram o assunto apenas entre si, discutindo o que significaria “ressuscitar dos mortos”.11 E lhe perguntaram: “Por que os mestres da lei dizem que é necessário que Elias venha primeiro?”12 Jesus respondeu: “De fato, Elias vem primeiro e restaura todas as coisas. Então, por que está escrito que énecessário que o Filho do homem sofra muito e seja rejeitado com desprezo? 13 Mas eu lhes digo: Elias já veio, e fizeram com ele tudo o que quiseram, como está escrito a seu respeito”.

A HUMILHAÇÃO DO REI COMO CAMINHO PARA SUA GLÓRIA – vv. 9-13

Quando a cena gloriosa da revelação de Jesus como o Filho de Deus se acaba, encontramo-lo juntamente com os três discípulos descendo do monte. Nessa descida, Jesus os adverte para que não contassem aos outros o que viram lá. A razão básica disso é semelhante a das outras situações nas quais também alerta para não anunciarem os seus milagres. Pois, sabia que se as pessoas ouvissem deles isso, facilmente o enxergariam como o Messias glorioso que instauraria seu reino naquele momento e libertaria Israel do poder de Roma. Antes da glória era necessário o caminho da cruz. Por isso, apenas depois da ressurreição, de sua rejeição e crucificação em favor dos pecados dos homens, aí sim faria sentido proclamar o Cristo que vem para reinar.

No ministério de Jesus vemos o quadro tanto do Servo como do Rei, pois não existe coroa sem a cruz. Isso assusta os discípulos que ainda não haviam entendido o que ele dissera alguns versículos, antes, sobre seu sofrimento e rejeição (Mc 8.31-32, 34-38). Por isso, mesmo decididos a obedecê-lo, guardando consigo aquilo que viram no monte, começam a indagar o significado de “ressuscitar dos mortos”. Já que ressurreição pressupõe morte e não esperavam um Messias morto. A dúvida venceu seu temor e ousaram perguntar: “Por que os mestres da Lei dizem ser necessário Elias vir primeiro?”. A idéia por trás da pergunta é esclarecida por Jesus em sua resposta. Se Elias viria e restauraria tudo (9.12), convertendo os corações das pessoas e preparando o caminho para Cristo (cf. Ml 3.1 e 4.45-6), logo Jesus não seria rejeitado (Mc 8.31), mas aceito como rei pelo povo.

Jesus não anula o entendimento dos textos de Malaquias pelos professores da Lei, mas alerta que há antes da glória o sofrimento e rejeição. Os doutores da época enxergavam apenas o reino de glória futuro, mas não conseguiam perceber o sacrifício que o precedia. Pois, a própria Escritura previa o sofrimento do Messias morrendo pelos homens, o Servo Sofredor pregado por Isaías (Is 53.3ss; cf. Sl 22.1-12).

Do mesmo modo Elias em seu ministério não experimenta muitos momentos de conversão do povo. Ao contrário, é rejeitado e perseguido pelo rei e rainha da época (1 Rs 19.1ss). A narrativa da morte de João Batista fornece um paralelo muito forte com o ministério de Elias e os próprios discípulos entendem que Jesus estava se referindo a João Batista (Mt 17.13; cf. Mt 11.14). João, também, experimenta a oposição do poder de Herodes, influenciado por sua mulher ilegítima Herodias, e acaba morto por isso (Mc 6.16-29). Assim, Jesus podia dizer que Elias veio, já que João ministrou no poder de Elias (Lc 1.17), e fizeram com ele todo o mal que quiseram, da mesma forma como perseguiram o profeta anterior.

Esse texto, assim como o anterior em que o tomar a cruz está em pauta, ressalta o custo da fidelidade a Deus e do sofrimento como parte da vida de seus servos. O caminho de Cristo não era apenas caminho de glória, mas também, de dor, rejeição, oposição como parte do ministério que recebera do Pai. O cristianismo moderno quer reinar acima do próprio Deus e gozar de uma vida próspera e confortável, sem perceber que é necessário sofrer por Cristo.

Paulo já dizia que “todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Tm 3.12). As dificuldades fazem parte de nossa jornada cristã. É por meio de tais dificuldades que percebemos nossa necessidade e dependência de Deus (2 Co 12.7-10). Não nos identificamos apenas com a ressurreição poderosa de Cristo, mas também, com seus sofrimentos e morte (Fp 3.10-11).

Portanto, quando:

  • Sofremos oposição e ridicularização em casa por causa de nossa fé;
  • Somos deixados de lado no trabalho por não concordar com ações erradas ou na escola, por não participarmos de conversas maledicentes;
  • Somos prejudicados injustamente por alguma autoridade, já que não abrimos espaço para a corrupção;
Lembramos que isso é parte do discipulado. Jesus não nos prometeu um mar de rosas enquanto o seguimos nesta vida, mas garantiu Sua presença motivadora e confortadora em meio às lutas, perseguições e dificuldades.

Nossa sociedade ocidental nos ensina a amar o mundo, em lugar de viver nEle para a glória de Deus. Muitas pessoas estão atrás de um carro novo, uma casa confortável, uma bolsa de estudos no exterior, férias em lugares lindos ou reconhecimento profissional. Seguir a Cristo não é mais a totalidade de nosso viver, mas, simplesmente, um dentre muitos outros compromissos, sonhos e responsabilidades que assumimos e buscamos.
Concluo com uma doxologia poética de Israel Belo de Azevedo que reflete bem nosso cristianismo que aprendeu a gostar demais deste mundo:

Depois
(Lucas 9.57-62)

Não fosse
a mesa cheia de papéis
a praia plena de ondas
a agenda marcada hora a hora
o prato exalando sabor

Tivesse ele
uma caverna como a raposa
um ninho como o pássaro
uma mochila pelo menos

Hoje mesmo eu iria atrás dele.

Um comentário:

Daniel de Souza Silva disse...

Vicio em Teologia em Abdala!!!
hahahahaha
Saudade de vc.

Precisamos nos ver.
Um grande abraço
Daniel (Wolverine)

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